quarta-feira, 16 de julho de 2008

A Cena: Parte 04

Transcorreu o espaço até o corredor como uma salamandra o faria. Não restaria nenhum registro de imagem destes instantes em sua mente, contudo, sua próxima aspiração era a confirmação de que havia ocorrido. Transpirava e sentia o ardor das chamas que a pouco, por pouco, não o consumiram. Apoiava-se na parede que dera às costas ao adentrar no eminente incêndio. Em sua mente sustentava um único pensamento: perdia no calor incontrolável sua única chance de resolver o caso.

O tempo para pensar em algo mais amplo do que isso Blankh só teria ao ver o dia nascer. Até lá, não pode parar por mais do que alguns segundos para recompor o fôlego. Naquele momento, percebeu temperatura não diminuiu e virou-se de volta para o apartamento. Da mesma forma com que modela as ondas de um mar em calmaria, a janela aberta permitiu que o vento o mesmo fizesse. Uma enorme labareda tomou o corredor, e fez Blankh sentir que a armadilha havia sido mais planejada do que imaginava.

Dessa vez não foi necessário agir tão rapidamente. Se dirigiu a escada de incêndio, alguns metros ao norte, a longos passos enquanto imaginava que o fogo consumia o corredor. Pisou profundamente no primeiro degrau da assustadora escada de madeira do antigo prédio e, ao mesmo tempo, como em uma sonoplastia sincronizada perfeitamente, escutou, e sentiu, uma enorme explosão vinda do corredor, no qual segundos atrás trotava. A experiência mais próxima a esta que possuía tinha sido um foguetório mal sucedido em uma final de campeonato de futebol. Foi lançado para o intermediário dos jogos duplos de escada de cada andar.

Ergueu-se e saltou dois destes jogos, enquanto ouvia os degraus superiores sendo destruídos, caindo sobre a escada e alastrando o incêndio mais rapidamente por todo o prédio. O ambiente já era totalmente ocupado pelas cinzas. Blankh não sabia mais se corria para evitar queimaduras de alto grau ou para poder, enfim, tomar um pouco de ar puro. Desceu mais dois andares aos tropeços, utilizando do corrimão para conseguir parar antes de atingir a próxima parede.

Finalmente avistou a porta de saída. Estaria a poucos metros do alívio que desejava. Se lançou sobre ela da forma mais agressiva e impensada. Ao fim de tal movimento desesperado, para sua sorte, estava ajoelhado no asfalto, com somente algumas queimaduras indiretas e arranhões da fuga desembestada. Pensava que, então, terminaria sua busca noturna fracassada. Para seu azar, estava com um revólver apontado no meio de seus olhos.