quinta-feira, 6 de agosto de 2009

El Diablo - Parte 03

O que Blankh esqueceu de calcular foi a altura da qual saltava. O salão da igreja, onde se travava a batalha, se encontrava no terceiro e último andar da mesma. Talvez nem fosse um queda tão considerável para um homem treinado contra condições piores em um conflito armado, porém, considerando seu estado física depreciável, a queda direta seria praticamente fatal. Nem ao menos teve tempo para estes pensamentos quando se chocou com o telhado de madeira.

Estava de face para a noite, novamente. Sentia que a dor continuava a se espalhar por seu corpo e muito pouco lhe restava para tentar reagir aquela situação. Ao menos, o inimigo parecia estar fora de seu alcance (apesar de pensar assim, o correto seria afirmar o inverso). Forçou o braço que menos lhe doía e tentou se erguer contra e um estalo rompeu o silêncio da noite. Não imaginava que se tratava do ruído frágil da antiga construção de madeira e, muito menos, que apenas alguns instantes depois estaria em queda livre novamente.

Dessa vez, a queda de um andar fora mais dolorosa pois era muito menos amortecida. Atingiu com as costas o concreto frio do abandonado estacionamento da instituição religiosa. Agora sim, era sua vez de romper o silêncio com um potente e rasgado grito, que tentava, de alguma forma, compartilhar seu sofrimento com o universo. Pouco efeito teve quanto a isso, pois seu corpo não deu qualquer alívio real da situação. O que desejava, no entanto, que fosse, ao menos, um poderoso combustível para um chamado de socorro.

Estava cercado por pedaços arrebentados da madeira envelhecida de tantos e tantos serenos. A luz ambiente agora era bem diferente das anteriores. A garagem era iluminada por quatro lâmpadas longas e antigas, que faziam todo o lugar vibrar constantemente em um frequência absurdamente irritante. De pouco adiantava ao rapaz franzir as sobrancelhas para obter uma imagem estática do local, era como assistir a um filme antigo: quadro a quadro. Em toda a longa extensão do local, só conseguia mesmo visualizar uma antiga caminhonete, cercada de longas teias de aranhas, e uma pirâmide de feno com o dobro de sua altura. Percebeu, então, que não tinha saída de lá.

Apesar dos largos anos no exército, Blankh só havia enfrentado um único conflito armado, em área civil mesmo. Na teoria e no treinamento, era perfeitamente capaz de lidar com aquela situação, mas após tantos imprevistos acontecimentos sobrenaturais daquela noite, nem ao menos sabia em quê acreditar. Usou a última energia que tinha para tomar uma profunda respiração. Com muito esforço, engatinhou cerca de cinco metros em direção ao veículo. Seu trajeto fora todo marcado pelo sangue, que ainda escorria fortemente, da mordida feroz que havia sofrido. Por fim, sentiu-se frágil e os sentidos começaram a lhe escapar. Uma mão o puxou pelo ombro, mas já havia abandonado sua consciência.