segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Ela.

"Porque sempre eu?" se perguntava ela enquanto atravessava a avenida. Rápidos eram os veículos que a cruzavam e apenas borrões de luz os identificavam. Ela não dava importância para aquilo, seguia calada e pensativa. Virava uma, duas ruas e abria seu guarda-chuva, que por um golpe de sorte não esquecera no caminho. Continuava andando, olhando para a frente fixamente, como se nada fosse capaz de mudar seu pensamento ou mesmo seus passos pesados.

E firme seguia noite a dentro, determinada em sua caminhada mas, ainda assim, se sentia perdida em sua vida. Tudo parecia tão fácil se ela não fosse ela mesma. Afinal, para todos os outros, viver parecia uma tarefa muito mais simples. A chuva, que parecia cair somente sobre ela, era mais um daqueles obstáculos que se limitavam ao seu universo particular.

Haveriam os que diriam que ela apenas queria encontrar um caminho mais fácil. Haveriam os que diriam que ela reclamava apenas por reclamar. Haveriam os que diriam a ela que não era capaz de ser. Haveriam os que diriam a ela para acreditar, e somente neles ela não acreditaria.

Subia a ladeira enfrentando a água que escorria em seu fluxo natural. Encharcava suas meias de tanto que os próprios tênis já não ofereciam resistência. Pisoteava as bocas das próprias calças, também molhadas e agora cobertas pela lama. A falta de acurácia do andar era compensada pelo peso da, que parecia enorme, mochila nas costas, que não a deixava sair do rumo. Enquanto o vento espalhava as gotículas em toda a sua perpendicularidade e tão pouco aquele escudo de pano em galhos metálicos lhe servia. Desejava estar em volta em sua própria bolha de plástico e chegar logo, e seca, ao seu lar.

Era mais um fim difícil de um dia tanto quanto. Queria chutar uma árvore, tão inocente quanto a própria, correr alguns metros e gritar em alto som. Ainda assim, Se continha em suas pequenas lágrimas, que se misturavam com as que caíam do céu, em sua passada compassada e em seu berro silencioso. E quando a esse ponto alcançava, se mostrava do que imaginava, ou ainda assim seria capaz de ver.

Ela queria ser a melhor no que fazia. Ela queria ter sempre bons resultados. Ela queria que a vida inteira não fosse assim tão difícil. Ela não queria ser mais uma no mundo. Ela não era, só precisava crer nisso.