segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A tempestade

A chuva cai e o mundo despenca lá fora. Cada trovoada durava mais tempo do que qualquer outra que já havia visto antes. As descargas eram longas e simultâneas, perto ou longe. Ela escurecia todo o campo e sua colossal sombra recaía sobre as montanhas, como se debrusassem sob uma árvore que não se moveria dali.

Do que ainda avistava, além das escuras e pesadas nuvens, apenas distinguia-se o vermelho de um pôr-do-sol de verão, Era o próprio inferno descendo, ironicamente, dos céus. Pediriam, os mais fiéis, que Deus tivesse piedade, mas sua arrumação do "andar de cima" estava demasiadamente agitada. Contudo, nem o mais fervoroso ateu se encontraria por espantado se visse, surgindo da gigante, os tais Quatro Cavaleiros.

Refletiam-se, nas águas turvas que rodeavam a cidade, as gravuras temerosas da luz em sua veloz transição. E tal prenúncio do abalo sonoro pouco fazia, tamanha sempre era a surpresa dos múltiplos impactos inesperados. Que os fótons tinham como função alertar para proteger seu auricular e espalhar o pânico dentre os habitantes.

As densas e ácidas gotas d'água atingiam o ríspido e, ainda, quente asfalto. Tamanha era sua intensidade que o escoar natural para o mar já não se fazia suficiente. Faliam as pretensões humanas de domar a ferocidade da natureza por dutos e tubulações: todo o fluido retornava. Seriam engolidos por toda aquela substância, essencial para a vida, incolor, inodora e insípida, que já carreavam consigo a essência das latrinas da civilização.

Se dos altos desciam, do interior retornavam. Chocavam-se contra a oca, porém impermeável, face da construção da alma moderna. Adquiriam suas próprias medidas: milímetros, centímetros e metros, que em termos de volume, e assim seus cubos, tornavam-se, rapidamente, valores numéricos exorbitantes. E os homens temiam os valores.

Previsões matemáticas que insubstanciáveis se faziam, a fúria tomava seu contorno. Enquanto os veículos de matéria se congestionavam pelo caos enchente, os veículos de informação fervilhavam e especulavam, das formas mais pavorosas e esdrúxulas, valores de perda financeira. E os homens realmente temiam os valores.

E dos sons se notavam, no cessar das descargas elétricas desconcertantes, unicamente, os alarmes dos telefones móveis, na sua total variedade, e os alarmes dos veículos ansiosos por um caminho não obstruído para casa. Comunicavam-se instintivamente, rompendo a única fronteira que ainda parecia não ter sido tocada: a transmissão de ondas eletromagnéticas. Sim homem, vença o que ainda pode.

A fumaça do maquinário era impedida de atingir a atmosfera e se contentava em absorver a vida dos seres terrestres, adentrando seus sistemas respiratórios. Triumfavam em lágrimas e tosses, sobre os mesmo que haviam o mundo saturado de tanta inércia química. Deviam, então, correr para seus salvadores de trajes brancos, e ter fé na salvação do oxigênio industrial.

Inqueatação que se espandiam sobre o lapso do desespero. Já não sabiam diferenciar o impacto constante e ritmado das precipitações aquosas do trovejante estampido, sem qualquer cadência, dos raios. Apenas fotos sobre a escuridão: sorria.

Ofegavam o tempo que não percebiam ter corrido. Um último ruído rompeu então aquela terra e os lapsos demoníacos de luz passaram a ser a fonte dos olhos. Perdiam o que haviam construído e aprendido, inconscientemente, a depender. A diabólica onda avassalaria todo e qualquer sistema eletromecânico construído.

Dos prédios apagados, das ligações perdidas, das imagens corrompidas, do tempo não mais contável, aquilo que haviam se construído sobre parecia ter escorrido esgoto abaixo. Provavam a fúria da maior de todas as nações. O verdadeiro Deus tomava a sua forma, a única força em seu papel. Retomavam sua natureza, pelo mais redudante que fosse.

Os homens jamais compreenderiam como resistiram a tal martírio divino. Escreveriam por séculos para narrar a desesperadora noite que se seguiu, fosse por verso, prosa, canção ou cinema. Era a nova arte que ganhava um enorme caldeirão de discussões e sensações para se esbanjar. Provariam dela todos eles.

Um deles apenas diria que, quando o Sol enfim cortou o céu, viu o azul que jamais sonharia ver novamente. O brilho da vida retomava sua forma. Da crueldade da crú investidade da natureza, selecionou-se os homens do novo início. Nenhum deles desejaria provar aquilo novamente, porém o ciclo fundamental do universo levaria-os sempre aquela condição, até que livres de todo o mal estivessem.

Libertem-se em sua essência: a tempestade, enfim, cessou.