segunda-feira, 23 de março de 2009

Quando a vida perde o gosto

E de um toque ele saltou da cama. Mal se lembrava porque já tinha que correr. Deixara a janela fechada e a vazia cama desarrumada para trás. Um pouco de água correu pelo seu corpo enquanto fingia fazer uma limpeza eficiente deste. Seguiu pela casa escura, sem se dar ao trabalho, ao menos, de iluminar o seu caminho. Patinava descalço pelo corredor, prenunciando seu próprio tombo de minutos depois.

Viria a primeira luz ao abrir a geladeira se a lâmpada tivesse se lembrado de trocar. Chacoalhou o braço por entre as prateleiras solitárias. Catou o último pedaço de alguma coisa que sobrara da janta, e que um dia fora chamada de pizza. Jogou-o no microondas e digitou número randômicos. Contou até dez mentalmente, o que levou uns quatro segundos, tirou e engoliu em um golpe de catchup.

Voltou ao quarto, após tomar o tal tombo em sua própria falta de cuidado ao se secar. Procurava um culpado enquanto se levantava sem perceber que nem toalha tinha lá para evitar. Se vestiu da roupa, já um pouco amassada, perdida na montanha do armário. Amarrou o cadarço de seu velho tênis de sempre e colocou a carteira em seu bolso. Contava em uma mão as moedas para o ônibus e com a outra buscava a chave da própria porta.

A luz o tocava pela primeira vez, mas tão pouco se importava. Se dirigia ao ponto de ônibus mal abrindo seus olhos para o mundo. Preocupava-se mais com o tal horário marcado em seu pulso. Pincelou, com os olhos, as manchetes dos jornais na banca. Atravessou mais algumas ruas, pouco ligando para o movimento ao seu lado. Manteve-se, durante incontáveis minutos, ao lado da placa, de pé. Acenou para o veículo junto com vários outros que ali estavam e já previa o resultado daquilo.

Empurrou e foi empurrado, talvez até sem entender que não empurrara conscientemente. Logo estava socado dentro daquela máquina, com tanta gente, por todos os lados. Era o odor do ser humano em seu natural, se sufocava de tanto. As janelas tão pouco melhoravam, ainda mais quando mal alcançava a roleta. Levaria alguns pontos ainda para passá-la e pagar por seu serviço com as moedas a tanto contadas. Não era porque haviam menos pessoas que ele se movera, e sim porque prosseguiam a empurrá-lo.

É. Enfim parou em seu destino e, pela última vez, se esgueirou entre os outros socados para alcançar a porta. O salto dos degraus traz de volta o sentimento de liberdade, que parece tão esquecido no meio da vida. É o vento que bate no rosto, mesmo que isso só o lembre de andar mais depressa. E aí ele andou. Dobrou mais umas duas ruas, ultrapassando as pessoas que pareciam não ter hora. Enfim tocou o interfone daquele gigantesco prédio acinzentado.

A porta de vidro se abriu ao meio rapidamente. Entrou realizando um cumprimento mecânico ao homem que guardava a portaria. Apertou o botão e aguardou por instantes o antigo elevador. O aço da porta se contraiu e ele, ainda assim, aguardou um outro trabalhador, que ainda passava pela porta, para se deslocar. Também cumprimentou, comentou sobre o tempo. De volta, o companheiro de viagem perguntou sobre o futebol, mostrando a ele o jornal que havia comprado. Destraíram-se juntos, durante algumas risadas. O movimento cessou e a porta se reabriu.

Estava exposto agora a uma enorme quantidade de luz artificial. As persianas na janela apenas os isolavam do mundo lá de fora. Encontrou facilmente sua própria mesa, apõs mais uma dúzia de "bom dia"s inexpressivos. Repousou sua pasta sobre a mesa dessarumada. Atravessou o corredor guiado por um cheiro tão confortável. Virou dois copinhos de plástico de café. Sentiu-se mais agitado e voltou para seu lugar. Sentou-se e recostou-se na cadeira. Corria com seus olhos, pelas primeiras vezes, a tela na sua frente.

O sistema carregou, ganhou cores e vida. Ele visitou, como de habitual, suas três ou quatro caixas de correspondência eletrônica. Olhou e excluiu, rapidamente, as propagandas de sempre. Selecionou, pelo título, algumas bobagens, enviadas por colegas de trabalho, para se distrair em algums momentos durante o dia. Leu, finalmente com atenção, os últimos informes da empresa. Foi lembrado da reunião que teria após o almoço.

O tempo foi passando e o serviço sendo feito. Conferia e autorizava, comparava e decidia. E assim o manhã prosseguiu. Leu dois dos e-mails com os powerpoints em anexo. Sentia as costas cansadas de tão paradas sobre aquele encosto. Olhou para o nada e rodou um lápis com os dedos. O relógio o avisou da hora de comer. Tentaria provar um pouco de felicidade, enfim.

Levantou-se e esticou as costas lentamente. Conferiu a carteira no bolso esquerdo de trás com um tapinha e se dirigiu de volta ao elevador. Reparou no caminho que quase todos os colegas de trabalho já haviam partido para seu almoço também. Assim sendo, estaria sem companhia para. Abertou o botão novamente, aguardou, pegou o elevador quase no seu limite de carga e desceu ao térreo. Saiu do prédio e voltou a provar o odor cinzento das ruas.

Dirigiu-se a esquina da rua, de onde avistou o restaurante onde pretendia almoçar naquele dia. Percebera, então, o custo da sua distração no computador. Havia uma enorme fila de outros trabalhadores do lado de fora. Imaginava que não poderia comer o que queria naquele dia. Andou até a próxima esquina e sentou-se na mesa do bar. Pediu um dos salgados sem graça do mostradouro e uma lata de refrigerante. Ao menos o açúcar o animaria.

Mastigou toda aquela massa e ajudava a bebida a engulir. Mesmo estando cheio o bar, levou poucos minutos para fazer tudo isso. Ainda com tempo de sobra para a volta de seu almoço, pensou em ir a algum lugar para se divertir. Não pensou em nenhum. Deu a volta no quarteirão, apenas para fazer uma caminho diferente. Fez todo o caminho de volta até sua mesa, sem mais nada acontecer.

Lembrava-se de uma tal reunião que teria pela tarde, e sabia muito bem o que significava reunião. Todos sentados, falando todas as bobagens que querem e ele lá, obrigado a escutar. Dirigiu a tal sala de reuniões, alguns andares acima do que ficava sua sala. Foi o primeiro a chegar. Sentou-se no lugar de sempre e aguardou a chegada de todos os outros. As vezes se assustava com a felicidade e vivacidade que alguns tinham em discutir e decidir coisas, ele só queria que o tempo passasse.

Lá se foram horas de discussão de termos técnicos e cargos, de burocracias que pareciam não ter fim. Rodou o lápis infinitas vezes pelos dedos, como um pedido aos ponteiros do relógio para rodarem mais rapidamente. Levantou a mão por duas vezes para demonstrar seu voto. Rezou para ser tirado da sala por algum incidente qualquer do mundo exterior mas, para variar, não fora atendido.

E chegou, enfim, ao seu fim. Seu traseiro já estava marcado por tanto que ficara sentando naquele assento, teoricamente confortável. Os outros ainda se mantinham nas discussões enquanto ele se levantou e saiu da sala sorrateiramente. Respirava o aroma do corredor, do qual já tinha saudade. Pegou mais um copo de café e voltou para a sua mesa. Por sorte, faltavam poucos minutos para o término do expediente. Talvez não seja sorte.

Revisou algumas das ocorrências do dia e adicionou ao seu relatório semanal. Manter essas atividades em dia lhe davam uma certa vantagem ao atingir o fim da semana. A preguiça era maior mas o trabalho já estava adiantado. Pela janela, via apenas a cor escura tomando o céu. Se aproximou para observar o caos ao qual o trânsito já se tomava. Sabia que havia chegado a hora de ir para casa.

Arrumou a sua pasta meio que de qualquer jeito. Jogou algumas coisas que estavam sobre a mesa dentro dela, sem nem pensar se usaria mesmo aquilo em casa. Pegou seu celular do lado da tela do computador e pôs no bolso. Conferiu se a carteira estava no bolso de trás. Respirou fundo e se dirigiu, pela última vez naquele dia, ao elevador.

Muitos outros também iam embora. Assim sendo, teve que esperar o elevador mais do que nos outros horários, até que conseguiu um que o abrigasse. Desceu, parando de andar em andar, com vários outros trabalhadores que lamentavam não ter lugar também dentro do cubo de metal. A viagem demorou muito mais do que o normal. Chegou dessa forma na entrada do prédio, acenou para o porteiro e, adivinhe, voltou a sua saga particular pelo ônibus.

Sabia que levaria tempo demais no ponto e ainda mais tempo parado em muitas e muitas ruas diferentes. Resolveu pegar uma atalho por baixo de tudo aquilo. Era a maravilha do metrô. Atravessou a praça a pé e desceu pela escada rolante. Comprou um pacote de amendoins em uma máquina da estação, para destrair os dentes enquanto esperaria sua vez na enorme fila para comprar o bilhete. Poderia estar mais irritado mas sabia, no entanto, que seria mais desagradável estar de pé no ponto de ônibus.

Tirou uma nota grande da carteira e, junto com aquele brilhante pedaço de papel, recebeu uma montanha de discos metálicos para guardar. Seu bolso estava bem mais pesado agora. Alimentou a máquina giratória com o papel e transpassou-a. Disputava lugar agora com muitos outros que aguardavam a chegada do trem. Sabia, por demais, que estaria de pé por toda a sua tragetória. Com um pouco de fé estaria, ao menos, confortável.

E não esteve. Ele chegou e abriu suas portas com tamanha violência. Violência semelhante a dos que o adentravam e buscavam diminuir o vácou do maquinário. Agarrou com a ponta dos dedos o cetro de alumínio no meio do vagão. Não sabia ao certo se o ar condicionado funcionava. Compensava por saber que horas abriria a porta de sua casa naquela noite.

Após nove paradas e aumentos na pressão exercida sobre ele, chegou ao seu destino. Brigou com outros seres para conseguir deixar o metrô quando a porta se abriu. Passou espremido por entre eles, prendendo ao máximo a sua pasta. Sabia da maior desvantagem da opção que havia feito: andaria mais até seu lar.

Saiu da estação e iniciou sua infinita caminhada de quatro quilômetros. Pouco mais de meia hora de passos ritmados por entre pequenas e pacatas ruas de seu bairro. Nem se lembrava de uma canção para assobiar enquanto andava. Passo atrás de passo, pegada atrás de pegada. Ao ver a lama se lembrava de que teria de limpar os sapatos pela manhã.

Subiu e desceu uma rua e viu, então, sua pequena morada. Estava emersa às luzes dos vizinhos e não via a hora de a ter acesa. Separou as chaves instintivamente, caminhando ainda. Deveria ter separado mais tempo para olhar a bela lua crescente que de lá, ao contrário do centro da metrópole, veria limpamente.

Rodou a peça de níquel esculpida por dentro do buraco na madeira. Esfregou os pés sujos no também imundo tapete da entrada. Suspirou sua sala desarrumada. Bateu a porta à suas costas e se entregou ao sofá. Tirou os sapatos com os pés e esticou as costas. Tocou o controle remoto e sentiu-se, enfim, dono do mundo. Acendeu a mágica caixa televisiva e encontrou logo seu telejornal. Tentava se lembrar do que havia visto no jornal pela manhã, mas não conseguiu.

O estômago o avisou que era a hora. Levantou-se tão desnorteado e se dirigiu a cozinha. Era outro cômodo sem qualquer organização porém estava pesado demais para mudar aquilo. Abriu a geladeira e tirou dois potes e um pedaço de carne. Colocou os seus conteúdos, junto com a peça, sobre um prato de vidro. Procurou ainda um pedaço de presunto para dar um pequeno colorido ao seu jantar. Inseriu-o no microondas, digitou "dois," "zero", "zero" e "ligar".

Encheu um copo de refrigerante sombrio e borbulhante. Não mais tão vivo, pois a tempos que o aguardava dentro da geladeira. Tomou um gole e esperou, de pé, o fim da contagem da máquina. Aproveitou para limpar os talheres que usaria naquela refeição. Retirou o prato com a mão cercada por um macio pano e o levou para o sofá com o copo. Se deitou e repousou tudo aquilo sobre. Tudo menos o copo que colocara no chão para evitar mais sujeira. Então comeu, enquanto dava risada de pobres trouxas que achavam que ganhariam algum trocado vendendo um desafio no meio da rua.

Sabia que havia gerado mais resíduo, mas pouca questão o fez de melhorar. Largou tudo dentro da pia, junto com os talheres do dia anterior. Dirigiu-se ao banheiro para limpar ao seu corpo. O fez por alguns longos minutos. Tentou curtir o frescor da água sobre seu corpo e se sentir, assim, menos solitário. Secou-se com não muita vontade, deixando escorrer ainda, por seu pescoço e costas, a água. Voltou ao sofá e era, enfim, a hora do jogo.

Futebol, ao menos, o destraía. Não era o seu time que jogava e tão pouco sabia qual era o campeonato, mas logo escolheu um lado para defender e já estava reclamando como torcedor de infância. Ofendeu à distância o juiz e, claro, debochou dos inúteis comentários da equipe de transmissão. O primeiro tempo se foi e com ele veio o sono.

Desligou tudo pela casa e foi para seu quarto. Saltou sobre a cama sem a menor burocracia e se afundou no travesseiro, que nem era tão macio, mas imaginava que fosse. Lembrou-se, por sorte, de acionar o despertador para acordá-lo no dia seguinte. Desejava que faltasse muito ainda para ele tocar. E até que não faltava.

Fechou os olhos e se dedicou à respiração. Não se ateve aos acontecimentos do dia ou aos planos para os próximos. Somente repousou. Talvez seus sonhos ainda tivessem algum gosto.

Era uma quarta-feira como outra qualquer, o calendário está cheio delas.